Três vezes Helena

Na primeira vez que vi Helena, me encantei.
Na segunda, tive medo.
Na terceira, me conformei.
Helena estava sentada em um banco da pracinha onde eu costumava ficar depois das aulas, perambulando, adiando a volta pra casa. Quando a vi, fiquei de cara. E finalmente entendi o significado de uma palavra que a professora de Literatura havia falado.
Helena era diáfana. E, sim, caro leitor. Para saber de fato como era Helena, você precisa saber o que é diáfana. Eu não vou lhe dizer. Vá ao dicionário.
Fui me aproximando, fingindo que olhava o celular, e me sentei no mesmo banco, mas não muito perto. Nunca tive problemas de conversar com as meninas, mas aquela não era uma menina comum. Fiquei meio sem saber como abordá-la e acabei optando pelo santo assunto do tempo.
— Tá frio, né? Mesmo com esse sol todo!
— Esse sol glorioso…
Ela estava de olhos fechados, a cabeça um pouco erguida, parecendo sentir um grande prazer em receber a luz do sol glorioso.
— Você já tinha vindo aqui antes? Eu nunca te…
— Não, nunca!
Preparei para me despedir e levantar, porque parecia que dali não sairia nada mesmo. Mas ela me surpreendeu. Virando-se rapidamente para mim, falou:
— Meu nome é Helena, e o seu?
Acomodou-se de lado, uma perna dobrada sobre o banco. Fiz a mesma coisa e passamos a conversar. Ou melhor, ela me fazia perguntas e eu respondia. Quando vi, tinha lhe contado boa parte da minha vida (que, é preciso dizer, não era grande coisa). Eu precisava ir embora, e disse:
— Eu tô sempre por aqui, a gente poderia se encontrar de novo, você não falou nada sobre você mesma, na verdade falou tão pouco…
Ela me interrompeu com um meio sorriso e propôs:
— Amanhã à noite, por volta das 9 horas, aqui mesmo, tá bom pra você?
Não parei nem um segundo para pensar e responder que sim, estava bom demais. Puxa vida, meu amigo leitor! Eu ia ter um encontro com uma gata linda. Entenda meu entusiasmo.
Antes de continuar, é bom contar que estou inserido em uma família totalmente conectada com o mundo e desconectada entre si. O único momento em que ficamos mais ou menos juntos é de manhã, no café. Mesmo assim, cada um se preocupa com os próprios celulares e mal olhamos um pro outro. Todos, pai, mãe e irmã mais velha, trabalham fora o dia inteiro. À noite, em geral a cena é sempre a mesma: cada um num canto da casa, com seu notebook. Chega ao ponto de mandarmos mensagens uns para os outros, mas raramente alguém toma a iniciativa de falar, de conversar com os outros. Há um lado bom nisso. Ninguém pega no meu pé; se volto mais tarde da escola, se falto a algum compromisso, em geral eles nem ficam sabendo. Você deve estar imaginando se não sinto falta de afeto. Bem, não sei… talvez um dia sinta… por enquanto, vou me virando.
Esse breve parêntese explica por que minha família não sabe, e nunca saberá, absolutamente nada do que iriei contar a partir de agora.
No dia seguinte acordei e tentei agir da maneira mais normal possível, mas acho que exagerei nos sorrisos e gentilezas, pois peguei mais de uma vez minha irmã me encarando com as sobrancelhas levantadas. Para ela notar alguma coisa em mim, é porque eu deveria estar dando manota, mesmo.
Depois da escola, passei pela pracinha e procurei por Helena, mas ela não estava lá. Corri pra casa, esquentei meu almoço e liguei a televisão. Nada de interessante. Fui para o meu quarto e fiquei olhando mensagens no celular. Nada de interessante. Zilhões de notificações no face, no twitter. Nada de interessante. Acabei dormindo.
Quando acordei, já passava das oito. Puxa vida!
Troquei de camisa, coloquei um casaco e saí pela porta da cozinha. Minha mãe, que lavava louças na pia, me perguntou aonde eu estava indo. Dei uma explicação meio tosca sobre um trabalho na casa de um colega e mal ouvi a resposta dela. Saí correndo.
Quando cheguei à pracinha, Helena já estava lá, com um vestido branco, de tecido fino, o rosto de novo levantado, de olhos fechados. Olhei em volta: a praça estava totalmente deserta, o frio intenso havia afastado até os casais que costumavam namorar por ali.
Sentei-me ao lado dela, esfregando as mãos.
— Como você consegue ficar sem um agasalho?
Como no dia anterior, ela me respondeu sem se virar:
— O frio não é um problema para mim.
Atrás de nós havia um poste cuja lâmpada jogava uma luz preguiçosa que era em parte encoberta pelos galhos de uma imensa árvore. Naquele momento o rosto de Helena estava praticamente no escuro, mas então ela se virou e a luz descobriu seu rosto. Ela parecia ainda mais jovem do que no dia anterior, não parecia ter mais que 16 ou 17 anos.
— Ontem você me disse que eu não falei sobre mim. Então vou lhe contar uma história. Está disposto a ouvir?
Fiz que sim com a cabeça. Eu estava totalmente extasiado com seu rosto perfeito. Mas a primeira frase dela me fez prestar mais atenção à história.
— Por minha causa, uma guerra começou.
Ela viu que eu me mexi no banco e sorriu.
— A guerra que eu provoquei não foi entre nações. Foi em uma família.
Helena passou a narrar sobre um rapaz que conhecera na escola. Ambos tinham a mesma idade, gostavam das mesmas músicas, tinham os mesmos amigos, frequentavam os mesmos lugares. O namoro surgiu como algo meio inevitável, empurrado pelo insistente mote “vocês nasceram um para o outro”.
— Até o dia em que conheci o outro.
Os pais do então namorado de Helena a convidaram para uma festa em que comemorariam trinta anos de casamento. A festa rolou sem problemas, mas Helena, já meio cansada de ser apresentada a tantos parentes, resolveu se sentar na varanda. Só depois ela viu que estava acompanhada por um rapaz, bem mais velho que ela, de barbas compridas, camiseta do Nirvana e um braço totalmente tatuado.
— Ele viu que eu olhava para as tatuagens com curiosidade e começou a me explicar. Cada uma tinha uma origem, uma motivação diferente. E através dessas histórias eu fui conhecendo aquele homem, profunda e apaixonadamente.
Resumindo, o que aconteceu depois disso foi que Helena deu um pé no traseiro do primeiro namorado por causa do rapaz tatuado. Aí começou a guerra.
— Eu não sabia. Eles eram irmãos.
O traído foi à forra. Junto com outros amigos, armaram uma emboscada e deram uma surra que levou o outro ao hospital.
Nesse ponto ela parou. Voltou à antiga posição, o rosto voltado para cima, na penumbra. Desta vez, não sorria.
— Mas e agora? Em que pé está a guerra? – perguntei.
— Depois da briga, que já faz alguns meses, deixei de atender os telefonemas e não li as mensagens que eles me mandaram. Uma amiga me disse que um dos dois ainda vai morrer por minha causa.
Ela suspirou fundo.
— Mas, não… tudo vai se resolver. Já tomei uma providência. Agora você precisa ir embora, já está tarde demais.
Olhei meu celular. Droga, passava de uma da manhã.
— Quero me encontrar de novo com você – eu disse. Ela respondeu:
— Amanhã, bem cedo, tenho um compromisso. Estarei em um velório. Você sabe onde fica o cemitério Luz Eterna? Nos encontramos lá. Não chegue depois das dez. Combinado?
Ela então tocou meu rosto e imediatamente senti um frio na espinha. As palavras velório, cemitério, luz eterna e, ainda, a frieza glacial da sua mão me fizeram levantar e ir embora depressa.
No dia seguinte, fingi que ia pra escola, andei alguns quarteirões, peguei um táxi e fui ao cemitério. Vi uma pequena multidão em frente a um dos velórios. Quando cheguei mais perto, li o nome que estava em uma plaquinha na parede do lado de fora, onde colocavam o nome do falecido. Helena Laskaris.
Não sabia o que pensar, nem o que fazer. Comecei a elaborar um significado para tudo aquilo. Será que alguma parente dela havia morrido? Talvez a avó…

Vi um grupo de jovens, alguns chorando, e resolvi me aproximar. Perguntei a um deles quem estava sendo velado ali.
— Helena. Ela era nossa colega de classe, mas tinha saído da escola há alguns meses. A gente ficou sabendo que ela estava deprimida. Mas isso… olha, ninguém imaginou que isso pudesse acontecer.
Perguntei o que tinha acontecido.
— Ela se suicidou. Os pais a encontraram ontem pela manhã, no quarto, com uma caixa de remédios vazia do lado.
Fiquei mais aliviado. Não poderia a ser minha Helena, com quem eu conversara até a madrugada. Seria apenas uma terrível coincidência terem o mesmo nome…
Entrei na sala cheia e olhei as pessoas, à procura daquele rosto lindo e único. E então tomei um susto quando vi um homem de barba comprida e um dos braços todo tatuado. Ele estava em pé ao lado do caixão, o rosto vermelho e coberto de lágrimas.
Com a boca seca e as pernas tremendo, fui andando devagar até o caixão aberto. E vi.
Assim eu vi Helena, pela terceira e última vez: ainda linda e muito mais diáfana.
São esses os fatos.
E você, leitor, que a esta altura franze a testa, acalme-se. Não precisa acreditar, se não quiser.

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