8) Eros e Psiquê

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Afrodite, com ciúme da beleza de Psiquê, ordenou a seu filho Eros que lhe atirasse flechas a fim de que ela se apaixonasse pelo ser mais horrível que existisse. Eros, porém, apaixonou-se pela moça e não deixava que nenhum homem se aproximasse dela. Seus pais, então, procuraram ajuda dos oráculos, que os orientaram a deixar Psiquê no alto de um rochedo, onde um monstro viria buscá-la. Os pais seguiram as instruções. Então, um vento forte a carregou delicadamente até o fundo de um vale, onde Psiquê adormeceu.

Quando acordou, viu-se num castelo onde tudo era mágico. Ao se deitar, sentiu a presença daquele predestinado pelo oráculo: o melhor dos maridos, que ela jamais poderia ver, pois do contrário o perderia para sempre. Ela se sentia feliz, pois o marido lhe dedicava muito carinho e amor.

Um dia, Psiquê pediu ao marido para visitar os pais. Ele relutou, mas lhe deu a permissão. Suas irmãs a induziram a desobedecer a promessa feita ao marido, de nunca olhar seu rosto.

De volta ao castelo, quando Eros adormeceu, a moça acendeu uma vela. Deslumbrada com a beleza do marido, Psiquê sem querer o acordou. Entristecido com a mulher, ele foi embora. Abandonada, Psiquê passou a vagar pelo mundo. Sofreu muitas penas até que se entregou à morte e caiu num sono profundo. Então, Eros implorou a Zeus que tivesse compaixão de Psiquê e o senhor do Olimpo permitiu que Eros tirasse a esposa do sono eterno e com ela voltasse a viver.

 

Pequena história de amor

 

Cena 1

Um rapaz com camiseta branca, calça jeans, mochila, tênis, entra em uma livraria e fica andando entre as prateleiras.

Uma moça negra, de cabelos afro e óculos, vestida com um avental no qual se lê o logotipo da loja, dirige-se sorrindo ao rapaz.

— Oi! Posso ajudar?

— Ah… eu tô precisando de comprar um presente pra minha mãe, mas tô em dúvida.

— E você sabe de que tipo de leitura a sua mãe gosta?

— Bem, eu acho que ela gosta de livros mais antigos, essas histórias de amor meio melosas, sabe?

— Hum, entendi. Ela deve gostar de romances clássicos. Vamos ali, vou lhe mostrar vários.

O rapaz segue a moça até os fundos da loja.

— Olha, há vários romances maravilhosos. Deste lado, estão os brasileiros e portugueses. Alencar, Manuel de Macedo, Eça… E daquele lado, os estrangeiros…

A moça olha para o rapaz e percebe sua dificuldade em escolher.

— Posso te sugerir um especial?

O rapaz faz que sim com a cabeça e ela pega um exemplar.

O morro dos ventos uivantes. É um livro maravilhoso, uma história de amor linda.

— Ventos o quê?

A moça sorri e faz um gesto com os braços imitando o vento.

— Uivantes… UUUUUUUUUUUUUU… É um romance meio gótico, dá até um medinho.

O rapaz ri e resolve comprar o livro.

 

Cena 2

O rapaz está em casa, sentado ao lado da mãe.

— Espero que você goste, mãe.

— Meu bem, eu adorei! Li este livro quando era adolescente, mas quero ler de novo. Como você adivinhou que eu gostaria deste livro?

— Bom, na verdade foi a vendedora que me indicou. Ela me perguntou o que você gosta de ler e aí me mostrou esse.

— Esperta, essa moça.

— Ela disse que é meio gótico, fiquei até com vontade de ler também.

— Olha, eu tenho estado ocupadíssima estes dias preparando o jantar que eu e seu pai vamos oferecer ao novo cônsul americano. Vamos fazer assim: você lê primeiro e depois eu leio. Combinado?

— Combinado.

 

Cena 3

O rapaz está em pé do outro lado da rua em frente à livraria.

Ao ver a moça sair, sem o avental, com uma bolsa no ombro, ele atravessa a rua e vai ao seu encontro.

— Oi, você não deve se lembrar de mim…

— Claro que lembro. Sua mãe gostou do presente?

— Gostou, sim. Ela já tinha lido quando era jovem e disse que vai gostar muito de reler. E… é… eu também li.

A moça arqueou as sobrancelhas e sorriu.

— É mesmo? E o que achou?

— É legal, mas é tão… tão triste, né? Ninguém é feliz ali.

A moça fica séria.

— É, acho que não. Por que você acha que o amor deles não dá certo? O que impede os dois de ficarem juntos?

O rapaz e a moça vão andando lado a lado pela rua.

 

Cena 4

A mulher ajeita os cabelos em frente a um enorme espelho oval. O rapaz entra no quarto.

— Oi, mãe! Trouxe minha namorada pra você conhecer.

— Mas agora, filho? Estou cheia de coisas para providenciar.

— Tá, mãe, eu sei… o tal jantar… Mas foi você mesma quem insistiu para eu trazer.

— Sim, mas…

— Não precisa se preocupar, nós marcamos de ir ao cinema. Não vamos ficar aqui mais que cinco minutos, tá?

O rapaz dá um beijo no rosto da mãe e os dois descem as escadas.

A moça se levanta do sofá, meio sem jeito. A mulher abre os braços e cumprimenta a moça com beijos na face. A moça relaxa e sorri.

 

Cena 5

A mulher entra no quarto do filho. Em cima da cama há uma mala aberta onde o rapaz, apressado, coloca roupas e objetos pessoais.

— Meu filho, escute. Vamos conversar.

— Foi a última vez que você aprontou comigo.

— Mas foi para o seu bem.

— Pra ficar bem eu tenho que ficar é longe daqui.

O pai do rapaz entra no quarto. Fala alto e lentamente, dirigindo-se à mulher.

— Deixa ele em paz. Você passou dos limites.

— Não fiz nada demais.

— Fez. Inventou uma história de roubo e tirou o emprego da moça. Passou dos limites, sim.

— Mas ele é um menino.

— Não. É um homem e vai saber se virar.

 

Epílogo

Um ano depois.

Um pequeno apartamento, com poucos móveis. É noite.

O rapaz e a moça estão sentados em um sofá. O rapaz cochila e a moça, recostada em seu ombro, assiste à televisão.

A campainha toca. A moça se levanta com cuidado, segurando a barriga de cinco meses de gravidez.

A moça abre a porta.

A mulher e a moça se encaram. A mulher abaixa o olhar e fica por um tempo mirando o ventre da moça. Abre a boca, mas não consegue falar.

A moça sorri, abre os braços e acolhe a mulher, que a abraça, chorando.

 

 

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