1) Meras, as fiandeiras do destino

meras

As Meras (ou Moiras) representam o destino de cada ser humano. A palavra “mera” significa, em sua origem, a cota de vida, felicidade, desgraça, etc., que cada um possui. São três irmãs – Átropo, Cloto e Láquesis – que controlavam a duração da vida, do nascimento à morte. Para isso, tinham um fio, que a primeira fiava, a segunda enrolava e a terceira cortava, quando acabava a vida que correspondia ao fio.

 

Rumos

 

Bato a minha mão fechada em outra mão fechada de um, dois, três colegas. Atravesso a rua sem olhar pros lados e sigo andando, fones no ouvido, mochila de chumbo nas costas. Viro à direita, à esquerda e já estou na minha rua.

Entro na casa vazia, abro a geladeira e bebo litros de água, pego uma fruta e vou direto pro quarto. Com pai e mãe no trabalho, experimento uma certa sensação de liberdade… até pra não almoçar, pra deitar na cama de tênis e tudo, pra ouvir Three days grace estourando meus tímpanos…

Abro os olhos e vejo no teto do quarto um inseto, uma pequena mosca que se move lentamente no branco, um ponto preto no teto branco. O que é um pontinho preto na neve? Uma mosca lerda andando no teto do meu quarto. Rsrsrs. Coisa mais ridícula, por que essa idiota não voa? Ela sabe voar, ela pode voar, a janela está aberta, mas ela insiste em andar a esmo no teto branco.

O celular vibrando no bolso me distrai daquela mosca-lesma: Não se esqueça da sua consulta às quatro!

Ah, meu Deus, que droga! Já estava me esquecendo mesmo, consulta às quatro com psicólogo, teste vocacional.

Já estou de saco cheio da ladainha. Não, pai, não sei qual faculdade quero fazer. Não, mãe, não há nenhuma disciplina que eu goste muuuiiito. Não, não quero ser professor como você, mãe, nem engenheiro como você, pai. Do que eu gosto? De música, posso ser músico? De cinema, posso ser cineasta? De futebol, posso ser jogador? Arrá… nada do que eu gosto serve pra vocês!!!

Acabei cedendo e aceitando fazer o tal teste. No fundo, eu estou meio incomodado mesmo com esse negócio de ter que escolher uma profissão. Tenho 17 anos, terminei o ensino médio e não sei que faculdade fazer. Se pudesse, não faria nenhuma, mas nem sonho em falar isso pra eles. Eles morreriam de desgosto.

A mosca no teto. Mas essa tonta não percebe a janela aberta? Será que vou ter que pegar pela mão e ajudar a encontrar a saída?

A maioria dos meus colegas já sabe que curso que fazer. Ou pelo menos pensa que sabe. Rodrigo quer fazer psicologia, acha que só com o povo doido lá da minha família vou ficar rico! E quando eu disse que psicólogo não pode cuidar de membros da família, ele ficou me olhando com cara de bobo. Breno quer fazer Direito, quer ser um adevogado de causas milionárias! Gente do céu, um sujeito que fala adevogado vai, sim, ser um brilhante profissional…

Mas tem a Dani, que quer fazer Medicina. Ela é fera em tudo, só tira notão, estuda pra caramba e diz que tem esse sonho desde pequenininha. Vai conseguir, claro. E tem o Fabinho, que quer estudar Geologia e depois se especializar em espeleologia, sabe de tudo sobre o assunto, conhece um monte de grutas. O cara já escolheu até a especialização que vai fazer depois do curso de graduação!

Minha amiga mosca parece que acordou, está indo com passadinhas rápidas para o rumo da janela, recua, olha pra lá e pra cá… vai, porcaria, voa! Você não sabe que tem asas? VAAAIIII, DROGA!!!

Aí, menina! Até parece que me obedeceu, a bobinha. Vai chegando vai chegando vai… AÍÍÍÍ…

Puxa vida! Essa mosca lerda me distraiu, agora tenho que me apressar… Pego uns biscoitinhos no pote, um iogurte e vou comendo enquanto me olho no espelho, ainda bem que aquela espinha monstro sumiu. Pego o endereço afixado na geladeira, saio, tranco a porta e vou tentar descobrir o que quero…

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *