Uma sonha. A outra pondera. A terceira maquina.
A que sonha fala e, falando, se expõe, transparente, ao mundo.
A que pondera ora fala ora se cala, e por muitas vezes, chora.
A que maquina só fala por meio de filtros, e ela nem sabe o quanto isso é revelador.
Três meninas.
Uma parece brejeira e natural, mas sua intensidade pode ser fatal.
A outra transpira meiguice e bondade, mas sua persistência e sua fibra de repente assustam os mais desavisados.
A terceira é arrogante e misteriosa, mas tanta autoconfiança dá pra desconfiar…
A primeira olha pro espelho e procura seu reflexo perdido.
A segunda olha pro espelho e acredita que o que vê é o seu reflexo.
A terceira considera que não precisa olhar pro espelho.
Três meninas. Nascidas na mesma época, são muito mais parecidas do que pensam ser. Têm inteligência o suficiente para sentir medo da vida. São corajosas o suficiente para enfrentá-la, cada uma como quer e como pode.
Que Deus as ajude!

A casa onde Sofia morava era grande, muito grande. Lá havia brinquedos, um pouco velhos, mas que a ajudavam a passar as horas, os dias, as semanas, os meses. O quarto onde dormia era muito amplo, a cozinha enorme, com uma grande mesa. Havia também muitas outras crianças com quem brincar, a maioria delas bem pequenas, muitas ainda usando fraldas.
O dia de Sofia começava cedo: às seis e meia o sino tocava, estridente, e todas as crianças tinham rapidinho que levantar, escovar os dentes e ir tomar seu café com pão e manteiga no refeitório. As maiores ajudavam as menores, sempre sob os olhares atentos das freirinhas, muito sérias e apressadas.
Sofia tinha 9 anos e odiava fazer aniversário, pois cada ano que passava era uma chance a menos de realizar seu sonho.
Mas naquela manhã a rotina se quebrou: o sino ainda não havia tocado quando a menina acordou com Irmã Helena puxando-a pelo braço. Ela deveria trocar-se e ir para o refeitório imediatamente. Acostumada a obedecer sem questionar, Sofia em um instante já estava quietinha no velho e puído sofá que ficava de frente para a porta de entrada do orfanato.
A freira superiora chegou com uma sacolinha de plástico nas mãos e, entregando-a a Sofia, disse:
– São suas coisas. Encontramos um lar para você.
O coração de Sofia disparou, a boca secou, as mãos gelaram.
– Mas, olha, não é bem uma família. É uma senhora, jovem ainda, mas viúva, que não teve filhos. Ela custou muito pra conseguir a adoção, queria um mais jovem, mas não conseguiu. Ficou sabendo da sua história. Viu sua foto. Veio aqui e te viu de longe.
O bolo na garganta. Tantas perguntas… Mas a cara fechada da freira não a estimulava a falar.
– Vocês vão ficar uma semana juntas, pra ver se dá certo. Vê se não estraga tudo.
O abraço foi áspero, sem jeito, acompanhado de um “Vá com Deus” sussurrado.
Pela janela da van caindo aos pedaços, Sofia ia olhando os postes, as casas modestas, as luzes começando a se apagar, as poucas pessoas andando ligeiras, de cabeças baixas… A cabeça da menina também se abaixou. Meu Deus, não era assim que eu tinha sonhado! Quem seria essa mulher? Só me quis porque não tinha outra? Um bebê, talvez, era o que ela queria?
Com muito custo, não chorou. Resolveu causar uma boa impressão, mesmo que a esperança de que fosse dar certo teimasse em ficar cada vez mais longe.
E quando a viagem parecia que não ia mais terminar, a van parou em frente a uma casa branca, pequena, com um jardinzinho de rosas de um lado e uma casinha de cachorro do outro lado da porta. Um portão meio torto, um cadeado velho. Então, era assim… Poderia, sim, ser essa a casa: pequena, modesta, de portão torto. O que interessava era a dona da casa.
E aí ela abriu a porta. Um sorriso tão grande que fechava os olhos, fazendo ruguinhas em volta. Os cabelos compridos, anelados, o vestido florido. Gordinha. E branca, muito branca.
Os braços abertos foram ao encontro de Sofia, que se encolheu, desacostumada de carinhos. Mas aqueles braços macios e branquinhos envolveram o corpo moreno e magro da menina. E quando se afastaram um pouco, a face de uma encontrou seu sonho na outra.

Escalar uma montanha de pedras
Escalavrar pés e mãos
Encontrar aqui e ali musgos, lagartos, cacos (de vidro de pessoas de coisas?)

Perder o ar
Escorregar

Retomar o já feito
Pisar em pontas finas
em pontos falsos
em pontes móveis

Encontrar aqui e ali uma sombra, um refúgio, a trégua do gozo
Pular de uma parte a outra de um buraco negro
Não olhar para baixo

Olhar para baixo
E desfalecer
desanimar
destemperar

Parar
Res pirar
Subir Subir Subir
Escalavrar pés e mãos
Despistar medos
Descobrir forças
Esquecer os olhos da plateia

Chegar
Descansar
Contemplar
Sorrir
Suspirar

E empreender a volta definitiva

 

 

O problema é que a noite é muito longa

 

Fosse mais curta

As recordações não acabariam em culpa e remorso

E não haveria rugas cada vez mais fundas

 

Fosse mais curta

O medo se perderia dos sonhos

E não haveria tão menos neurônios

 

Fosse mais curta

A confabulação dos mortos em meus ouvidos

Aos poucos

Docemente

Se acalmaria

Amém

 

Política é isto.
O sujeito, já aposentado, mas ainda relativamente jovem, apesar do que aparentava a careca e a barriga, arranjou uns bicos como representante comercial e passou a visitar prefeituras de cidadezinhas do interior mineiro.
Daí que, chegando a uma delas, pequenina e praticamente desconhecida, acabou por fazer, além de negócios, amizade com o prefeito, que o convidou a voltar outras vezes para “tomar uma cachacinha”.
Ele voltou muitas outras vezes até que, vislumbrando arranjos para o futuro, convenceu a patroa a se mudarem para lá em definitivo.
Assim fez. Instalado em uma bela casa, pagando um aluguel barato, o figurinha foi se enturmando com as personalidades locais, sempre com o aval do prefeito. Passou a frequentar certos bares (ou melhor, os bares certos), a participar de festas no clube da cidade e dos eventos culturais, a assistir às missas aos domingos, sempre na cola do prefeito.
Até que chegaram as eleições municipais. O prefeito candidatou-se à reeleição e seu novo amigo, a vereador. Cumpriu a via crucis de praxe: visitou as casas, tomou os cafés, carregou as criancinhas. Sempre na cola do prefeito.
A cidadezinha, no entanto, revelou-se um tanto quanto rebelde, pois reelegeu o pirata, mas deu apenas 25 votos para o seu papagaio.
Vinte-e-cinco, como passou a ser chamado pela oposição, não se abalou e está se preparando para as próximas eleições municipais. Neste ano, já ajudou a montar a aparelhagem de som para as festas de carnaval, ocasião em que também desfilou em vários blocos; além disso, dançou a quadrilha com os participantes do Movimento da 3ª Idade e faz parte ativamente do Conselho Tutelar da cidade.
Na semana santa, lá estava ele, durante as encenações da paixão de Cristo, vestido de soldado romano, com saiote vermelho e lança na mão.
Política é isso.
Aprendeu?