Uma sonha. A outra pondera. A terceira maquina.
A que sonha fala e, falando, se expõe, transparente, ao mundo.
A que pondera ora fala ora se cala, e por muitas vezes, chora.
A que maquina só fala por meio de filtros, e ela nem sabe o quanto isso é revelador.
Três meninas.
Uma parece brejeira e natural, mas sua intensidade pode ser fatal.
A outra transpira meiguice e bondade, mas sua persistência e sua fibra de repente assustam os mais desavisados.
A terceira é arrogante e misteriosa, mas tanta autoconfiança dá pra desconfiar…
A primeira olha pro espelho e procura seu reflexo perdido.
A segunda olha pro espelho e acredita que o que vê é o seu reflexo.
A terceira considera que não precisa olhar pro espelho.
Três meninas. Nascidas na mesma época, são muito mais parecidas do que pensam ser. Têm inteligência o suficiente para sentir medo da vida. São corajosas o suficiente para enfrentá-la, cada uma como quer e como pode.
Que Deus as ajude!

(Sala de bate-papo na internet)

Pit: Alô, galera! Tem alguém aí? Socorro! Help!
Beto: Uai? Que trem te deu, sô! Por onde cê andava?
Pit: Me deu um treco, Beto! Me apaixonei por um carinha aí. Saí do ar… Ai! Tá doendo até agora!
Xis: Puxa! Não acredito! É você mesmo, Pit? Fala sério…
Babi: Uau! Ela voltou! Turma, cuidado! Muita calma! Gente, a Pit voltou pra nossa sala… E agora?
Pit: Claro que voltei!
Pepê: Orra, meu! Você deu um perdido danado, meu!
Surfa: Pô! Tu voltou mermo, cara? E aí, gatinha? Que tu tá mandando?
Pit: Voltei, poxa! Credo! Que surpresa é essa, galera? Eu nunca saí não, entendeu? Só dei um taime… Viajei na maionese, sacou?
Gringo: Barbaridade! Tu viajou, guria? Tá trilegal agora?
Bené: Oxente! Que frege arretado! Chispe! Me conte, minha linda!
Pit: Ainda bem que encontrei vocês! Uau! Tava com saudades!
Desliga: Ué! Que foi que houve? Qual é o papo?
Rê: A Pit, que voltou pra turma. Psiu! Gente, deixa a Pit falar…
Babi: Não acredito! Vai começar tudo de novo… Depois ela desaparece novamente!
Minnie: Opa! Deixa eu entrar nessa!
Tica: Silêncio! Gente, deixa a Pit falar…
Pit: Fiquei com um carinha aí, sabe? O maior barato! Virtual mesmo! Passamos três dias e noites nos teclando… Depois, dei um clique errado na parada dele. Ele quis me conhecer, de verdade, sabe?
Lu: Nó! Que coragem! E aí, deu certo? Ou deu fogo cruzado?
Pit: Fogo cruzado! Bala pra todo lado! Entrei no site dele, viajei nos links que ele me deu, sacou?
Nana: E aí? Puxa! Desembucha!
Pit: Não deu nada. O carinha queria ficar comigo, de verdade!
Tica: Que horror!
Pit: Queria ficar colado comigo, sacou? E isso não dá certo, vocês sabem…
Beto: Que trem mais maluco!
Bené: Arre égua! Desgruda dessa, minha flor!
Pit: Já desgrudei. Tou na boa agora! Então? Vamos namorar?
Gringo: Aí, guria, primeiro comigo… Quero te falar uma coisa: eu adoro esse seu piercing no nariz!
Pepê: Alto lá! Quem é que te deu essa preferência, Gringo? Qualé, mano? Eu sou o primeiro da fila, lembra?
Gringo: Bah! Namora com a Danny, guri. Tu tá a fim dela, tchê!
Surfa: Aí, mermão! Sai fora! Essa gata é minha, morou?
Pit: Vamos parar com isso, gente! Só queria falar isso… Eu amo vocês! Uau! Beijos pra todos!
Babi: Ué, você vai sair de novo? Eu sabia! Não se pode confiar em você… Eu avisei!
Pit: Só por uns segundos, gatinha… deu vontade de fazer um peps… Fui!

(Texto do amigo/companheiro de trabalho Antônio Barreto)

A casa onde Sofia morava era grande, muito grande. Lá havia brinquedos, um pouco velhos, mas que a ajudavam a passar as horas, os dias, as semanas, os meses. O quarto onde dormia era muito amplo, a cozinha enorme, com uma grande mesa. Havia também muitas outras crianças com quem brincar, a maioria delas bem pequenas, muitas ainda usando fraldas.
O dia de Sofia começava cedo: às seis e meia o sino tocava, estridente, e todas as crianças tinham rapidinho que levantar, escovar os dentes e ir tomar seu café com pão e manteiga no refeitório. As maiores ajudavam as menores, sempre sob os olhares atentos das freirinhas, muito sérias e apressadas.
Sofia tinha 9 anos e odiava fazer aniversário, pois cada ano que passava era uma chance a menos de realizar seu sonho.
Mas naquela manhã a rotina se quebrou: o sino ainda não havia tocado quando a menina acordou com Irmã Helena puxando-a pelo braço. Ela deveria trocar-se e ir para o refeitório imediatamente. Acostumada a obedecer sem questionar, Sofia em um instante já estava quietinha no velho e puído sofá que ficava de frente para a porta de entrada do orfanato.
A freira superiora chegou com uma sacolinha de plástico nas mãos e, entregando-a a Sofia, disse:
– São suas coisas. Encontramos um lar para você.
O coração de Sofia disparou, a boca secou, as mãos gelaram.
– Mas, olha, não é bem uma família. É uma senhora, jovem ainda, mas viúva, que não teve filhos. Ela custou muito pra conseguir a adoção, queria um mais jovem, mas não conseguiu. Ficou sabendo da sua história. Viu sua foto. Veio aqui e te viu de longe.
O bolo na garganta. Tantas perguntas… Mas a cara fechada da freira não a estimulava a falar.
– Vocês vão ficar uma semana juntas, pra ver se dá certo. Vê se não estraga tudo.
O abraço foi áspero, sem jeito, acompanhado de um “Vá com Deus” sussurrado.
Pela janela da van caindo aos pedaços, Sofia ia olhando os postes, as casas modestas, as luzes começando a se apagar, as poucas pessoas andando ligeiras, de cabeças baixas… A cabeça da menina também se abaixou. Meu Deus, não era assim que eu tinha sonhado! Quem seria essa mulher? Só me quis porque não tinha outra? Um bebê, talvez, era o que ela queria?
Com muito custo, não chorou. Resolveu causar uma boa impressão, mesmo que a esperança de que fosse dar certo teimasse em ficar cada vez mais longe.
E quando a viagem parecia que não ia mais terminar, a van parou em frente a uma casa branca, pequena, com um jardinzinho de rosas de um lado e uma casinha de cachorro do outro lado da porta. Um portão meio torto, um cadeado velho. Então, era assim… Poderia, sim, ser essa a casa: pequena, modesta, de portão torto. O que interessava era a dona da casa.
E aí ela abriu a porta. Um sorriso tão grande que fechava os olhos, fazendo ruguinhas em volta. Os cabelos compridos, anelados, o vestido florido. Gordinha. E branca, muito branca.
Os braços abertos foram ao encontro de Sofia, que se encolheu, desacostumada de carinhos. Mas aqueles braços macios e branquinhos envolveram o corpo moreno e magro da menina. E quando se afastaram um pouco, a face de uma encontrou seu sonho na outra.

Escalar uma montanha de pedras
Escalavrar pés e mãos
Encontrar aqui e ali musgos, lagartos, cacos (de vidro de pessoas de coisas?)

Perder o ar
Escorregar

Retomar o já feito
Pisar em pontas finas
em pontos falsos
em pontes móveis

Encontrar aqui e ali uma sombra, um refúgio, a trégua do gozo
Pular de uma parte a outra de um buraco negro
Não olhar para baixo

Olhar para baixo
E desfalecer
desanimar
destemperar

Parar
Res pirar
Subir Subir Subir
Escalavrar pés e mãos
Despistar medos
Descobrir forças
Esquecer os olhos da plateia

Chegar
Descansar
Contemplar
Sorrir
Suspirar

E empreender a volta definitiva

 

 

O problema é que a noite é muito longa

 

Fosse mais curta

As recordações não acabariam em culpa e remorso

E não haveria rugas cada vez mais fundas

 

Fosse mais curta

O medo se perderia dos sonhos

E não haveria tão menos neurônios

 

Fosse mais curta

A confabulação dos mortos em meus ouvidos

Aos poucos

Docemente

Se acalmaria

Amém

 

Política é isto.
O sujeito, já aposentado, mas ainda relativamente jovem, apesar do que aparentava a careca e a barriga, arranjou uns bicos como representante comercial e passou a visitar prefeituras de cidadezinhas do interior mineiro.
Daí que, chegando a uma delas, pequenina e praticamente desconhecida, acabou por fazer, além de negócios, amizade com o prefeito, que o convidou a voltar outras vezes para “tomar uma cachacinha”.
Ele voltou muitas outras vezes até que, vislumbrando arranjos para o futuro, convenceu a patroa a se mudarem para lá em definitivo.
Assim fez. Instalado em uma bela casa, pagando um aluguel barato, o figurinha foi se enturmando com as personalidades locais, sempre com o aval do prefeito. Passou a frequentar certos bares (ou melhor, os bares certos), a participar de festas no clube da cidade e dos eventos culturais, a assistir às missas aos domingos, sempre na cola do prefeito.
Até que chegaram as eleições municipais. O prefeito candidatou-se à reeleição e seu novo amigo, a vereador. Cumpriu a via crucis de praxe: visitou as casas, tomou os cafés, carregou as criancinhas. Sempre na cola do prefeito.
A cidadezinha, no entanto, revelou-se um tanto quanto rebelde, pois reelegeu o pirata, mas deu apenas 25 votos para o seu papagaio.
Vinte-e-cinco, como passou a ser chamado pela oposição, não se abalou e está se preparando para as próximas eleições municipais. Neste ano, já ajudou a montar a aparelhagem de som para as festas de carnaval, ocasião em que também desfilou em vários blocos; além disso, dançou a quadrilha com os participantes do Movimento da 3ª Idade e faz parte ativamente do Conselho Tutelar da cidade.
Na semana santa, lá estava ele, durante as encenações da paixão de Cristo, vestido de soldado romano, com saiote vermelho e lança na mão.
Política é isso.
Aprendeu?