5) Fama, a voz pública

fama

A divindade Fama, mais conhecida em Roma que na Grécia, era dotada de inúmeros olhos e bocas. Deslocava-se voando rapidamente, disseminando notícias verdadeiras ou falsas por todos os cantos. A Fama vivia ao lado da Credulidade, do Erro, da Falsa Alegria, do Terror, da Sedução e dos Falsos Rumores. Do alto do seu palácio, vigiava o mundo.

 

Querida!

 

Meu nome é Pollyanna, tenho 16 anos e acabo de sofrer um desastre.

Vamos começar do início.

Eu já não gostava desse nome mesmo antes de minha mãe explicar o porquê da sua escolha. Quando ouvi a tal história, aí sim fiquei com ódio. Como alguém pode gostar de uma personagem tão… tão… besta, meu Deus? E ainda por cima inventou um monte de eles, ípsilon e enes, porque acha bacana. Minha mãe era tão legal que acabei deixando pra lá, fingindo que gosto muito do meu nome, só pra não a deixar chateada.

Durante toda a minha infância, ela escolhia minhas roupas de acordo com o gosto meio doido dela, e o resultado em geral era hilário. As fotos são testemunhas: eram muitos laços, tiaras, babadinhos. No aniversário de dois anos, o tema da festa era a Barbie, mas eu parecia mais o Bozo, tamanha a quantidade de enfeites. No de quatro anos, eu deveria ser a Pequena Sereia e estava a cara da boneca Emília.

Foi por volta dos meus dez ou onze anos que comecei a questionar minha mãe sobre a adequação de certas roupas e acessórios que ela teimava em me impor:

— Top de oncinha, mãe? Melhor não…

— Esmalte com estrelinha? Bem…

— Sandália vermelha com meia-calça preta? Oi?!

E mesmo minha mãe sendo muito legal, eu dava um jeito de não aceitar todas as opiniões dela.

Foi há cerca de um ano que o desastre começou.

Quando cheguei da escola, minha mãe veio me mostrar um vídeo que ela havia visto na internet. Era o anúncio de um concurso que iria escolher a garota  Fashion Teen (confesso que, ao ouvir esse nome, me arrepiei com um mau pressentimento). Vi o vídeo meio displicentemente e fui saindo de fininho, mudando logo de assunto.

À noite, porém, minha mãe deslizou pela porta do meu quarto, com uma delicadeza bem diferente do seu costume. Ficou elogiando meu cabelo, minha pele, meus olhos… meu instinto arrepiante sussurrou algo em meu ouvido: Fuja, que é cilada!

— Que exagero, mãe! Sou igual a todo mundo, nem melhor nem pior.

— Mas Polly, querida! Que mania de se desvalorizar… você é linda! Tem porte, elegância.

E desferiu languidamente o bote:

— Aposto que colocaria no chinelo qualquer concorrente à Garota Fashion Teen

Pronto. Eu sabia.

Fui logo dizendo que eu nunca participaria de um negócio daqueles, que essa coisa de porte e elegância era pra patricinha, e eu não era patricinha, ainda não entendeu isso, mãe? 

Ela não se deu por vencida, e nos dias seguintes fez marcação cerrada. Em todas as oportunidades que tinha, tentava me mostrar as vantagens que eu teria se participasse do concurso. Dizia que era uma oportunidade única, que eu estava na idade certa, que ganharia um troféu, que iria conhecer um monte de pessoas legais, ficaria famosa e blá blá blá…

Eu juro que não queria, mas ela insistiu tanto que acabei aceitando. Fizemos a inscrição pela internet e daí pra frente foi o caos.

Percebi o perigo quando ela me disse que no dia seguinte começaríamos os preparativos. Expliquei que estava em plena semana de provas e, se o concurso ainda demoraria uns seis meses, pra que nos preocuparmos com isso naquele momento? Ela inclinou a cabeça para o lado, gesto recorrente quando queria impor uma opinião, e mandou esta:

— Querida, amanhã vamos a uma escola de modelos e etiqueta social…

Gelei.

E no dia seguinte, é claro, estávamos lá. Fomos recebidas por Dona Antônia, uma senhora muito fina, muito discreta, muito calma… o avesso de uma certa pessoa. Combinamos prazos, horários e voltamos pra casa. Minha mãe, radiante e eu, em choque.

Para minha surpresa, as horas que passei naquela escola foram até legais. Havia várias professoras e as aulas eram de etiqueta social, postura, vestuário e maquiagem. Em algumas ocasiões, era Dona Antônia que apenas se sentava ao meu lado e pedia que eu falasse sobre um assunto qualquer. Aí, ia me corrigindo o tom de voz, o vocabulário, os gestos. Aprendi muito com ela.

Além disso, minha mãe me levou a uma nutricionista, a um dermatologista, a uma esteticista e a uma… cartomante. Sim. Isso mesmo.

Passei por duas seleções prévias e fui escolhida com mais 11 garotas. Fomos fotografadas e entrevistadas pelos organizadores do concurso, que explicaram tudo o que iria acontecer a partir dali. A essa altura, eu já estava curtindo tudo aquilo e acreditando que poderia ganhar o concurso e ficar famosa. Sim, eu podia, por que não?

E chegou o dia. Após devidamente massageada, penteada, maquiada, perfumada, vestida e calçada, eu, com minha mãe e meu pai, rumei para o clube onde aconteceria o evento. Eu me sentia linda e poderosa.

Ouvindo mamãe gritar “Vai, querida! Arrasa!”, me encaminhei destemida, junto das outras meninas, para o backstage, onde os organizadores nos lembravam do que deveríamos fazer, embora já tivéssemos feito vários ensaios.  Dali a pouco, a banda começou a tocar umas músicas meio toscas e ouvimos o apresentador iniciando o concurso. Então, iniciou-se também a catástrofe.

Até ali eu sentia um nervosismo legítimo, pois sabia que iria ser observada e analisada por jurados que não imaginava quem seriam. Porém, quando minhas colegas começaram a ser chamadas e fui ouvindo aplausos, vaias, assovios, apitos e balões estourando… um suor deu o seu ar frio da graça em minha nuca.

Na mesma proporção em que o suor ia escorrendo pelo pescoço, um bolo começou a se formar na boca do estômago. Eu seria a nona a entrar e, de onde estava, ia ouvindo os nomes e vendo as respectivas meninas indo para a porta do palco. Minhas mãos gelaram e o bolo foi subindo para a garganta.

Quando ouvi meu nome, fiquei imóvel. Vi a moça com uma prancheta na mão gesticulando, me chamando, e eu travada. Alguém me puxou pelo braço e eu fui meio cambaleando até a entrada do palco, de onde vislumbrei a plateia. Pensei em voltar e sair correndo, mas resolvi enfrentar o pesadelo e subi o primeiro degrau, subi o segundo e no terceiro meu pé, úmido de suor, escorregou na sandália. Saí catando cavaco, com os braços esticados pra frente, e caí de bruços no chão. Naquele momento, ouvi as palavras de Dona Antônia: “Aconteça o que acontecer, seja altiva e sorria”. Morrendo de dor no pé e na alma, ouvindo gargalhadas e assovios, fui me levantando, ajudada pelo apresentador. E aí aconteceu o pior. Ao levantar o olhar, vi minha mãe subindo no palco, levantando os braços e xingando a plateia. Me apressei em levantar e, de repente, minha mãe se volta pra mim, gritando “Querida!”. Saí do palco correndo e mancando como um pato maluco, com minha mãe atrás tentando me alcançar.

E foi assim, senhoras e senhores, que aquele sonho ruiu, acabou, foi dizimado pelo maior tombo da história. Agora estou aqui, deitada em minha cama, de pé enfaixado, as muletas encostadas na parede. Adeus concurso, prêmio, fama…

Mas, quer saber? Tô nem aí!

Afinal, esse sonho nem era meu, ora.

(Minha mãe entra no quarto: Querida! Não fique tristinha! No ano que vem haverá nova edição do Garota Fashion Teen!)

 

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